quinta-feira, 13 de maio de 2010
» Entardecer cinzento
Entardecer cinzento, como cinzentos eram os seus pensamentos, no regresso a casa, após mais um dia extenuante de trabalho, a cabeça martelando sempre com o mesmo pensamento, valeria ou não continuar a lutar para viver, lutando contra todas as adversidades que ávida lhe tem dado ao longo dos seus 26 anos de uma existência infeliz, pobre, miseravelmente pobre e sempre explorado.
O bairro de barracas onde vive já se avizinha, as crianças brincando nos charcos de água podre das chuvas, mas felizes como se de piscinas se tratasse, alheias à miséria que as rodeia, até que o acordar for doloroso, e as torne tristes e infelizes como tantas outras crianças e adultos espalhados por todo esse mundo.
Boa tarde seu Manuel! Olá seu António como foi esse dia no trabalho! Bom como todos os dias mentiu o António, então e você como vai seu Manuel?
Cá vou indo esperando todos os dias que chegue a minha hora, pois deste mundo já pouco espero.
Bom vou-me chegando prá minha barraca, até já seu Manuel, não vá já seu António, venha dai tomar um copo na tasca da ti´Maria, não seu Manuel, fica para a próxima por hoje já tenho a minha conta, e lá se foi cabisbaixo por entre os becos das barracas do seu bairro.
Antonieta sua mulher sentada à soleira da barraca tentava remendar a roupa dos seus que muito coçada mal segurava as linhas, olá! Hum respondeu-lhe ela; o Jorge perguntei-lhe, anda prá aí, o jantar está pronto? Já vou pôr na mesa, é só acabar estas roupas, entro e sento-me no banco junto à mesa, agarro na garrafa do vinho, despejo um pouco num copo e olhando através do liquido, recuo no tempo pensando no que foram todos estes anos, e relembro o tempo da escola, onde todos éramos iguais, muito embora eu fosse com as roupas remendadas e os sapatos rotos. Nessa altura, eu não notava qualquer diferença, mesmo quando os meus colegas eram aguardados por carros de luxo e motoristas fardados.
Bruscamente sou retirado da escola mal fazendo a terceira classe, com a morte súbita do meu Pai vitima do vinho que sempre o acompanhou não o deixando ser mais que um vulgar varredor de rua, sustentando, Mãe mulher e quatro filhos, todos mais novos do que eu, com o magro salário que ganhava, do qual parte gastava na bebida, obrigando minha Mãe a ter que servir como mulher a dias lavando escadas, fazendo recados, para que não nos fosse faltando algo para comer. E, com isso tudo e os maus tratos que recebia de meu Pai, envelhecia a olhos vistos, tendo ainda que suportar, em silêncio e com grande amargura a chega do meu Pai perdido de bêbado, partindo, batendo e berrando com todos, para além disto tudo, minha avó com a idade de 76 anos, doente presa a uma cama, e de um feitio insuportável, berrava com a minha Mãe e connosco, era esta a juventude que eu tive que começar a viver, prematuramente. De um lado gritos, do outro pancadaria, os meus irmãos mais novos chorando, minha Mãe quando tudo se acalmava sentava-se a um canto da cozinha e chorava silenciosamente tudo suportando, perguntando em pensamento, meu Deus quanto tempo terei eu que carregar esta cruz.
Encolhido no lugar onde dormia assistia a tudo isto sem compreender porque se gritava ou se batia e acabava por adormecer vestido chorando, por ver minha Mãe chorar, foi então que compreendi onde estava a diferença que existia no mundo entre as pessoas e mais tarde a diferença social que na escola, o não percebi devido à minha inocência de garoto.
Tarde da noite minha Mãe estendia sobre mim uma manta, e lá se ia rezando baixinho pedindo a Deus por todos nós, pois ela era muito religiosa, nunca faltando à missa do Domingo. Ao acordar cedo no outro dia tudo voltava ao normal, como se nada tivesse acontecido na noite anterior, meu Pai já tinha partido para o trabalho, lúcido depois de curtido a bebedeira e preparando-se para de novo no regresso voltar tudo ao mesmo, raro era o dia que isso não acontecesse, minha Avó dormia profundamente, meus irmãos brincavam felizes na sua inocência, da cozinha vinha um cheiro a torradas com manteiga e a café de saco, era a minha Mãe preparando-nos o pequeno almoço que ficava na mesa, enquanto partia para a luta de todos os dias, luta para angariar parte do sustento de que nós tanto precisava-mos, eu levantava-me e depois de tomar o pequeno almoço lá ia para a escola, ficando meus irmãos entregues a uma vizinha, enquanto minha Avó ficava sozinha em casa, ao seu alcance ficava uma garrafa de água um copo e um pão.
Com a morte súbita de meu Pai mais dura e triste foi a minha adolescência com apenas 12 anos tive que começar a trabalhar duramente para ajudar minha Mãe a sustentar os meus irmãos, minha Avó e nós, seu tempo sequer de brincar, saltar ou jogar à bola. Comecei por dar serventia de pedreiro, manhã cedo lá ia eu para as obras carregar com baldes de areia, cimento ou pedra, as pernas vergando ao peso do que ia carregando, aliado à fome e ao frio, ao almoço comia o naco de pão e um bocado de chouriço ou toicinho que minha Mãe me dava e regava tudo com água da torneira da obra, uma peça de fruta e algum naco de outras coisas que me ofereciam os Mestres do pouco também que traziam, eram o meu farto almoço, ao fim do trabalho lá vinha eu para casa arrastando os pés mais do que caminhando exausto, chegava e atirava-me logo para cima da enxerga onde dormia e caia então num sono profundo, sem ter comido nada, o meu sonho durante a noite era tão lindo, tão lindo que quando eu acordava pensava que a minha vida não era uma realidade mas sim essa é que era um sonho, mas não, a realidade é mais dura e logo me tirava todas as ilusões que eu julgava estar a viver mas olhando em meu redor e vendo as paredes da barraca com todos os seus buracos, o chão em terra e todo o aspecto miserável que me rodeava, eu via então que lindo tinha sido o meu sonho, que bom seria viver um pouco que fosse a vida que eu tinha no sonho.
Uma pequenininha casa com telhados vermelhos uma linda chaminé pintada de azul, por onde saia o fumo do fogão a lenha que tinha-mos, cá fora um lindo jardim com canteiros arranjados por mim e minha Mãe, Cravos, Rosas, lindas trepadeiras ladeavam o muro, à nossa volta um lindo campo cheio de flores amarelas e Papoilas à mistura com Pinheiros e ao longe longas Montanhas de um azul acinzentado, uma linda música nos ramos dos Pinheiros, o trinar das aves saltitando de ramo para ramo, o voar baixo das andorinhas anunciando a Primavera, dentro de casa minha Mãe com um lindo avental o cabelo solto com uma fita branca prendendo-o estava linda tratando do almoço dentro de uma pequena cozinha toda forrada a mosaicos, uma janela virada para a Montanha com uma vista linda até se perder no horizonte,
O meu quarto era lindo, com duas janelas, que o inundava de luz, e onde o sol todos os dias ia beijando, dando-me os bons dias, cedo me levantava, e corria pelos campos fora atrás das borboletas, parando para ouvir os pássaros cantando felizes por serem livres, de regresso a casa tomava o pequeno almoço, e começava a tratar da criação ajudando a minha Mãe a tratar de tudo que se relaciona-se com a casa, serrava madeira para ter no Inverno lenha para a lareira.
Mas o sonho terminou e eu hoje penso sentado à mesa, no intervalo de cada copo de vinho que vou bebendo, e seguindo as pisadas de meu Pai, que no fundo ele tal como eu ia afogando todas as desilusões no vinho, como o mundo está mal feito, ou como os homens o tornaram tão defeituoso, conseguiram formar uma sociedade de meia dúzia de ricos e muitos milhões de pobres e infelizes que como eu terão que trabalhar duramente e mal pagos para o enriquecimento cada vez maior da sua já grande riqueza. Mas se esses pobres miseráveis os começarem a incomodar, uma guerra ´forjada por esses mesmos Capitalistas que ficam na retaguarda alimentando a fogueira dessa guerra vendo entre copos de Whishys que vão tomando como são dizimados mais alguns milhares de pobres miseráveis que começavam a cheirar mal na sociedade dos senhores.
Vá homem acorda e larga a bebida, tens o jantar a ficar frio, o jantar? Umas couves cozidas com batatas e um rabo de bacalhau que são só espinhas, entretanto chega o Jorge correndo, todo sujo, gritando Mãe tenho fome, olhamos um para o outro, Antonieta grita logo para ele, vai-te lavar seu porco e vem jantar, enquanto ele vai passar um pouco de água pelo corpo, Antonieta lamenta-se que não tem dinheiro para fazer nada, que está tudo caro, e tu António tens que parar de beber, come homem, então e tu que vais comer, eu não tenho fome comi alguma à tarde agora não me apetece, mais logo como um prato de sopa e fico bem, era esta a nossa vida, e o meu pensamento voltava ao principio valeria de facto continuar a viver, seria esta a vida a que me estava destinada, nesta curta passagem por este mundo em que me colocaram, que futuro poderei eu dar ao meu filho.
Escrito por: Kalu, Aveiro - Portugal
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